Sou artesão de Carnaval, diz homem que cria fantasias há 46 anos em MT

José de Paula tem 71 anos de idade e é engenheiro agrônomo aposentado.
A primeira fantasia foi criada em 1968, após desfilar por escola de samba.
Carolina Holland

Do G1 MT
José de Paula cria fantasias desde 1968 em Cuiabá
Boa parte das fantasias de escolas de samba de Cuiabá e outros municípios de Mato Grosso dos últimos 46 anos passaram pelas mãos do engenheiro agrônomo aposentado José de Paula, de 71 anos. Vive o Carnaval todos os anos desde 1967, quando desfilou pela primeira vez. Responsável por criar e costurar, ele também já se arriscou em fazer letra de música. Mas, não se considera um carnavalesco. Sou um artesão de Carnaval, define-se.
O gosto pela folia começou ainda pequeno, por influência do pai e de uma mulher que trabalhou com a família. Ela morava no Terceiro de Dentro [hoje, região do Bairro Grande Terceiro] e me levava nos bailes do José Maria, no [cordão] Coração da Mocidade. Então eu fui pegando o gosto, disse.
A estreia na avenida ocorreu aos 24 anos, em 1967, pela então recém-criada escola de samba Deixa Cair. Eu tinha ido estudar fora, em Belém do Pará. E tive outros trabalhos. Fui o primeiro modelo negro do Brasil. Morei 8 anos em São Paulo, fiz trabalhos na Europa. Ia trabalhava e voltava, era uma loucura. E, quando voltei a Cuiabá me convidaram para desfilar como destaque, numa fantasia de Rei Zulu, conta. O Coração da Mocidade fazia parte dos mais importantes cordões da época, grupo formado ainda por nomes como Estrela DAlva e Estrela do Oriente.
O envolvimento com o carnaval e a escola de samba foi tão intenso que, em 1968, ele começou a criar e fazer costurar as fantasias da Deixa Cair. Entre 1968 e 1973, eu vivi o Carnaval nessa escola, conta.
Depois, ficou até o ano de 1993 na Estrela do Oriente, que era cordão e passou a ser escola de samba, diz José de Paula. Após esse período, até 2001, foi da Caprichosos do Terceiro. Entre 2002 e 2003, a escolhida foi a Unidos do Morrinho, escola de Santo Antônio do Leverger, a 35 km de Cuiabá.
Corte e costura
Em todas elas eu desfilava e costurava as fantasias, conta José de Paula. O talento para a costura foi herdado pela mãe. A primeira experiência com agulha e linha foi desafiadora. Um amigo meu chamado Rui disse que eu não era capaz de fazer uma roupa igual às do Jânio Quadros [então presidente do Brasil]. E trouxe um tecido importado. Falei com minha mãe e ela disse pra eu não fazer porque ia estragar o pano e não teria como pagar, afirma.
O amigo, no entanto, tranquilizou José de Paula. Ele disse que se houvesse estrago, ele mesmo iria comprar outro. Então, tirei as medidas dele e passei pra um jornal. Chamei o Rui, experimentei o jornal nele primeiro, e deu certinho. E, depois que cortou o tecido, deu tudo certo. Eu tinha uns 18, 19 anos, relembra.
Sem desfilar
Após o Carnaval de 2003, ele decidiu parar de desfilar e se concentrar somente na função de criar e costurar o que os foliões iriam vestir. Foram inúmeras escolas desde então - ele não saberia precisar em quantas fantasias trabalhou desde que começou a se envolver nesse ofício. E avalia o que é mais difícil no processo.
Criar é um pouquinho mais difícil do que costurar. Porque você já tem que criar e saber que aquilo vai ser costurando. Tem muito estilista, por exemplo, que imagina coisa que não consegue costurar depois. Tem que casar as duas coisas. E nós desenhamos mesmo, à mão. Não copiamos em computador, diz.
Amor ao Carnaval
O atual ateliê funciona há quatro anos em uma casa que fica no entorno da Praça da Mandioca. Entre os meses de dezembro e fevereiro, a rotina é puxada. Ele chega às 5h30 e vai embora por volta da meia-noite. Todos os dias. Às vezes eu durmo por lá mesmo, conta.
Para este ano, as encomendas foram para os blocos Banana da Terra, Unidos do Porto e Melados e a escola Império de Casa Nova, da capital. No interior, Bode do Karuá (Chapada dos Guimarães), Eles e Elas (Acorizal) e um bloco do distrito de Bonsucesso (Várzea Grande). E a roupa da rainha do Carnaval da Praça da Mandioca. Os trabalhos, no entanto, são feitos a várias mãos. No total, três costureiros e dois ajudantes atendem a demanda.
José de Paula afirma que trabalha, sobretudo, por amor. De vez em quando a gente ganha um dinheiro, que dá pra um mês ou pouco mais que isso. Mas, levei muito cano também. Muito! As pessoas pegam a fantasia e depois não pagam.
O costureiro afirma que a correria dos três meses de trabalhos preparatórios pro Carnaval é grande e que, todo ano, ele pensa em desistir. Mas, não consegue. Não imagino minha vida sem Carnaval. Porque todo ano eu falo que não quero mais saber de Carnaval, que estou cansado. Todo ano. Mentira! Aí na hora que aparece uma pessoa e fala disso, eu já pego um lápis, desenho e começo a fazer de novo, confessa.