Sistema de economia solidária ainda é pouco difundido em Alagoas

Artesão afirma que cooperativa vende boneca de garrafa pet por até R$ 50. (Foto: Natália Souza/G1)
Na última semana, diante do anúncio do investimento de R$ 2,9 milhões do governo federal para o fomento de projetos e empreendimentos econômicos solidários em Alagoas, através do Programa Produzir Juntos, muito se ouviu falar em Economia Solidária, modelo de mercado ainda pouco difundido no Estado. Segundo o último mapeamento da Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho, somente 284 grupos alagoanos com características desse sistema.
Munido de uma vasta experiência sobre o assunto, o secretário Nacional de Economia Solidária, Paul Singer, veio a Maceió para o lançamento do programa que vai contemplar 17 municípios alagoanos, além da capital, e definiu o termo de forma bem teórica. Economia Solidária é uma organização de produção, de comercialização, das finanças e do consumo que privilegia o trabalho associado, a autogestão, a cooperação e a sustentabilidade considerando o ser humano na sua integridade como sujeito e finalidade econômica.
De maneira mais didática, o professor universitário e coordenador de Economia Solidária da Secretaria de Estado do Trabalho, Emprego e Qualificação Profissional (Seteq), Eugênio Dantas, exemplificou o tipo de economia. João é produtor de laranja, Maria produz o suco, José desenvolve uma arte gráfica para o rótulo do produto. Juntos eles comercializam e geram renda, sem relações trabalhistas patronais, sem um chefe e um subordinado. As decisões são tomadas em conjunto, destacou.
Sem nível fundamental de escolaridade, a artesã Zuleide Fragoso Costa, 53, contou à reportagem do G1 como funciona sua rede de associação e resumiu da forma mais realista a Economia Solidária. Eu costurava individualmente e fazia crochê, outra pessoa fazia o filé, outra o renascença. Então pensamos, por que não juntar os conhecimentos, produzir juntas e gerar mais renda? E daí formamos a cooperativa Guerreiros Artesãos.
Composta por dois grupos de 25 pessoas, a associação chega a vender uma boneca de garrafa pet por R$ 50 em feiras. Um cata as garrafinhas, outras fazem as pinturas, a gente faz os vestidinhos de renda para a boneca, ou seja, nós mesmos somos capacitadores, somamos conhecimento, sempre pensando na sustentabilidade. Nos reunimos uma vez na semana para pensar em novos produtos que poderemos desenvolver, disse. Agora o que não adiante é termos o talento, produzirmos e não ter um lugar para comercializar de forma decente, completou.
Potencial a ser explorado
O secretário de Estado do Trabalho, Emprego e Qualificação Profissional, Alberto Sextafeira, reconheceu que ainda existe um grande gargalo. As pessoas produzem e não conseguem comercializar. Dependem sempre de um atravessador. Ele destacou que a comercialização dos produtos será um dos pontos que o Programa Produzir Juntos vai explorar.
A Economia Solidária não é algo novo. Já existia. Agora o que está acontecendo é que o governo está mapeando e fomentando as políticas públicas nessas comunidades. Com o recurso de quase R$ 3 milhões, não vamos ensinar o talento, vamos lapidá-lo. Teremos ações e oficinas de qualificação de mão de obra, de gestão e de comercialização, através de equipes multidisciplinares formadas por agentes e consultores, disse.
De acordo com Sextafeira, a grande procura das comunidades ao programa demonstra o potencial que existe em Alagoas. Dos 284 grupos mapeados em Alagoas, 121 grupos se inscreveram através do chamamento público do projeto. Isso envolve 2.038 pessoas. Desse total, selecionamentos 72 comunidades localizadas no Agreste, Sertão, Vales do Mundaú e Paraíba e Grande Maceió, destacou.
Entre os 72 empreendimentos selecionados no Produzir Juntos, 27% é no setor alimentício, 11% no de confecções, 4% no de serviços autônomos, mas é o artesanato, com 58% de atuação, que representa a maior concentração dos produtores nesse modelo de mercado.
Resultados qualitativos
Como Zuleide, é também do artesanato que a aposentada Lindinalva Camargos, 65, também tira a renda extra no fim do mês. Eu faço a costura do filé. Sou artesã há 10 anos e já entrei nesse ramo com foco na Economia Solidária, nunca quis produzir sozinha. Me associei à Cooperarteban, na Barra Nova, onde nos reunimos em dois pontos fixos, disse.
O trabalho é coletivo e a divisão do lucro é de acordo com a produção de cada um, sem vantagens, sem um mandar no outro. Quase todo mês eu e mais duas pessoas vamos às feiras em todo o Brasil para vender nossos produtos. Vamos representando eles e vendemos os produtos feito por outros artesãos. Às vezes, chego a tirar por mês sozinha R$ 1.500, além da aposentaria, contou.
Apesar de deter vários dados quantitativos sobre os empreendimentos solidários no estado, o secretário Alberto Sextafeira afirmou que ainda não é possível mensurar em números os resultados e a representatividade dessa atividade na economia total de Alagoas.
Existe uma lei de Fomento à Economia Solidária e a lei que cria o Conselho de Economia Solidária em Alagoas. Ambas estão na Assembleia Legislativa para apreciação. A partir da sanção destas leis, poderemos começar a mensurar esses resultados, destacou.
Harmonia com economia tradicional
Se em Alagoas ainda não há dados sobre resultados, em nível nacional a atividade ainda se mostra tímida. A Economia Solidária representa 3% do Produto Interno Bruto do Brasil, segundo o especialista Paul Singer. Os dados do Ministério do Trabalho apontam que há 33 mil empreendimentos de economia solidária no Brasil, o que envolve 3 milhões de pessoas da população ativamente econômica do país, disse.
Segundo Singer, apesar dos adeptos mais radicais ao sistema, é possível uma harmonia entre a economia tradicional e a solidária. A economia solidária é uma economia alternativa para a erradicação da pobreza, para a elevação da escolaridade. Há os mais radicais que não suportam a ideia de conviver na economia capitalista, mas acredito que elas coexistem. Afinal, o produtor de laranja precisa da semente, dos insumos, do fertilizante, e isso tudo ele vai ter que comprar do sistema capitalista, disse.
A economia solidária é a forma mais democrática de economia. Não há patronalismo, não há quem mande, todo mundo tem voz ativa. A situação da Economia Solidária em Alagoas é extremamente otimista pelos talentos naturais que já temos aqui nas comunidades quilombolas, indígenas, entre outras, completou.
Fonte: Natália Souza Do G1 AL