Seringueiro e artesão, Dr. Borracha faz botas e sapatilhas de látex

Seringueiro e artesão, Dr. Borracha faz botas e sapatilhas de látex
Sou um defensor da floresta, diz o seringueiro José Rodrigues.
Ele usa técnica da Folha Semi Artefato (FSA) para produzir peças.
Veriana Ribeiro
Do G1 AC
O seringueiro José Rodrigues com a esposa
Desde os dez anos, o seringueiro e artesão José Rodrigues, de 42 anos, trabalha com a extração de látex em seringais no Acre. Há sete anos, ele começou a fazer sapatos de borracha usando uma técnica em que são produzidas folhas de latex, as chamadas Folha Semi Artefato (FSA). São botas, sapatilhas e até sandálias gladiadoras. O dom de produzir os materiais em látex fez com que o seringueiro ficasse conhecido como Doutor Borracha.
Toda vida eu sempre cortei seringa, desde os meus dez anos de idade. Participei de um curso com representantes da Universidade de Brasília (UnB) e comecei a fazer artesanato. Fiz vários produtos, sandálias diferenciadas, lembra.
Ele admite que nunca pensou em ser artesão. O dom, foi uma descoberta. Mas atualmente Rodrigues não se vê em outra profissão. Gosto de ser artesão, me vejo como artesão e seringueiro. Sou um defensor da floresta, diz.
Os preços dos calçados variam entre R$ 30 a R$ 90, dependendo do modelo e tamanho do sapato. Rodrigues explica que a maioria dos produtos são feitos a partir de encomendas e que as vendas variam entre 50 e 100 pares por mês. O carro-chefe da minha renda é o sapato de látex. Em média, consigo por mês dois salários mínimos. Dá para me manter, porque eu tenho meu roçado, onde planto banana, macaxeira, milho, feijão, afirma o seringueiro. As encomendas dos sapatos podem ser feitas com o artesão, através do telefone 9936-7215.
Sandálias e sapatos de borracha são feitos por artesão
FSA
Para criar os produtos, o Doutor Borracha reúne os ensinamentos tradicionais, repassados pelo seu pai, também seringueiro, com a técnica da Folha Semi Artefato (FSA), desenvolvida pelo Laboratório de Tecnologia Química (Lateq) da Universidade de Brasília (UnB), que aprendeu durante um curso realizado no Acre.
Todos os dias ele acorda de madrugada, por volta das 4h da manhã. Antes do sol nascer, ele parte pela colocação, cortando cerca de 45 seringueiras para retirar o leite usado na fabricação da borracha. Eu acordo de manhã, umas 4h ou 5h, faço meu café e vou cortar seringa. Volto, passo duas horas em casa e depois vou colher, relata Rodrigues.
Depois ele aplica as técnicas de produção das mantas, ou folhas, de borracha. A analista de conservação do WWF-Brasil no Acre, Kaline Rossi, explica que após a colheita, o leite da seringueira é misturado com um produto químico, chamado ácido pirolenhoso, que irá realizar a coagulação do leite.
Tradicionalmente esse processo era feito com fumaça, mas esse produto utilizado atualmente é uma espécie de fumaça condensada. Ele mistura em uma bandeja, o látex, o antifúngico (para evitar o ataque de microorganismos), o ácido e o leite coagula formando uma manta na parte de baixo da bandeja, diz.
A organização trabalha com a cadeia produtiva da borracha, apoiando desde a produção na floresta, com material para fabricação das mantas até a capacitação de seringueiros até o estabelecimento de preços de mercados mais justos.
Mantas de SFA produzido durante curso da WWF-Brasil
A manta de borracha é passada várias vezes em uma calandra (espécie de cilindro manual), para ficar fina, e depois é colocada para secar. A FSA também recebe uma mistura vulcanizante, e isso significa que ela já sai pronta para ser utilizada na indústria. O processo de vulcanização é parecido com o utilizado na fabricação de pneus, explica Kaline.
Rodrigues conta que após fabricar as mantas de borracha, que têm uma espessura aproximada de 2 milímetros, ele começa o processo de molde dos sapatos. Eu vou cortando essa manta e montando o sapato. É como o trabalho de um alfaiate, explica. Para deixar a matéria-prima colorida, ele usa corantes durante a fabricação da manta. Coloco o corante no látex e faço a cor que eu preciso, ainda no processo de fazer a borracha. Ela é branca, então eu faço a cor que eu quero, diz.
Exposições
Além da fabricação dos sapatos, José Rodrigues também trabalha na capacitação de outros seringueiros e participa de exposições. Em abril deste ano, os calçados foram expostos em Milão, Itália, no Espaço Brasil S/A, durante o Salone Internazionale del Mobile. Neste mês o seringueiro irá participar do SBPC Extrativista, evento que faz parte da programação da 66° Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Um dos coordenadores do SBPC Extrativista, Tadeu Melo, explica que terá um espaço para mostrar 10 cadeias produtivas do extrativismo, entre elas a borracha. Também vão ocorrer mesas redondas e conferências de temas relacionados ao extrativismo, além de quatro minicursos. Cada cadeia vai ter um espaço mostrando desde a colheita na floresta até o consumidor final, diz.
As atividades vão ocorrer entre 22 e 27 de julho no Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre (UFAC). De acordo com a programação, Rodrigues deve participar durante dois dias do evento. Além de expor os materiais, ele deve realizar uma palestra sobre a produção dos artesanatos.