Primeira cooperativa de detentas gera renda e eleva autoestima de mulheres


Risoneide Pereira, presidente da cooperativa, já sabia várias técnicas de costura e bordado e ensinou às colegas
Da Redação
Agência Pará de Notícias
A vida dentro de uma penitenciária começa a ganhar novos tons no Centro de Recuperação Feminino, da Superintendência do Sistema Penal (Susipe). O motivo é o trabalho desenvolvido por 23 mulheres na primeira cooperativa do Brasil formada exclusivamente por detentas. O registro foi feito há cerca de um mês na Junta Comercial do Estado, a Jucepa. Na Cooperativa Social de Trabalho, Arte Feminina e Empreendedorismo, elas produzem materiais utilizando técnicas como crochê, tricô, costura e outros tipos de customizações. O resutado é disponibilizado para venda ao público.
A iniciativa surgiu dentro do próprio espaço. A diretora do Centro, Carmem Botelho, percebeu a necessidade da criação de atividades para preencher o tempo ocioso das presas. Quando cheguei aqui, logo comecei uma pesquisa para saber os motivos que trouxeram essas mulheres a este local. Vi que a maioria é de senhoras a partir de 40, 50 anos, e que cumprem pena por tráfico de drogas. Comecei a imaginar o que fazer para que elas não voltassem ao tráfico. A partir daí, pensei nos ensinamentos de minha avó e que hoje poucas pessoas se dedicam, como bordado, crochê, fuxico, conta a diretora.
A partir daí, era colocar a ideia em prática. Foi o momento de pesquisar entre as próprias detentas quem sabia ou já tinha a experiência em trabalhos manuais. Quem tinha o domínio da técnica começou a ensinar as que nunca haviam tido contato com artesanato. E assim, o grupo foi crescendo. Sequencialmente, foi oferecido a estas mulheres um curso do Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo, o Seescoop-Pará, o que fomentou a regularização e a criação da cooperativa com Cadastro Geral de Pessoa Jurídica (CNPJ).
As prefeituras de Belém, Ananindeua e Marituba também entraram na parceria viabilizando a venda dos produtos nos finais de semana, nas praças da República, Bíblia e Matriz, respectivamente. Graças à efetiva organização do projeto, as detentas conseguiram o direito de sair aos fins de semana para venderem o material. A cada saída de uma presa, duas agentes penitenciárias as acompanham de perto e garantem seu retorno ao centro.
Elas também já fizeram exposições no Tribunal de Justiça do Estado, na Junta Comercial do Estado do Pará e na própria Superintendência do Sistema Penal. E agora estão com um estande na Feira de Artesanato Paraense, no Hangar Centro de Convenções.
Histórias
Risoneide Pereira, de 54 anos, está desde o início no projeto e se tornou a presidente da Coostafe. Ela já sabia várias técnicas de costura e bordado antes de integrar a criação da cooperativa e ensinou às colegas. No começo foi tudo muito difícil e agora já está melhor, mais organizado. A ideia foi maravilhosa, para crescer junto e ter um futuro melhor. Eu era depressiva e essa cooperativa me tirou da tristeza. Só de vir aqui trabalhar...é outra vida! E minhas filhas que estão lá fora apoiam e falam para agarrar a oportunidade com unhas e dentes, porque participando da cooperativa estou só ganhando, conta Rosineide.
Maria Domingas Dourado, de 50 anos, é outra integrante da cooperativa que está desde o começo do projeto. Ela afirma que muita coisa mudou. Passava muito tempo na cela. Sentia tristeza, stress. Agora trabalhando nem sinto o tempo passar. Logo, logo eu saio daqui e vou levar tudo de bom que aprendi. Coisas que nem sabia que existiam. Imagina que agora eu sei que existem e ainda sei fazer. Quero sair e ensinar artesanato para outras pessoas, explica.
Outra que está engajada é Marcilene da Cruz, de 37 anos, que desde o começo de julho se encanta com o trabalho e os materiais feitos pelas colegas. Antes só sabia crochê, aí quando vi pela primeira vez essas bonequinhas me apaixonei e fui logo tentar aprender como fazer. Hoje eu tirei de bom desse tempo aqui dentro a convivência com as meninas, aprender a fazer as coisas e ainda ter uma profissão, diz.
Marcilene ainda ressalta as vitórias já obtidas no pouco tempo de criação do empreendimento. Já fizemos exposições dos produtos em vários lugares e agora vamos participar de uma feira internacional, mostrando nosso trabalho. Já pensou?! É um grande privilégio. Eu acredito na ressocialização sim! Daqui pra frente tudo vai ser melhor.
Edinelma de Moura, de 45 anos, também encara o desafio pessoal e profissional de frente. Pra mim foi ótimo. Passa o tempo e a mente não fica atribulada. Tô empolgada e quero montar uma firma quando sair daqui, com meus filhos. Minha filha chorou quando me viu na televisão falando sobre o projeto. Quero mostrar para a minha família e para a sociedade que posso vencer com meu trabalho, afirma.
Para a idealizadora do projeto, Carmen Botelho, os resultados obtidos entre as cooperadas é a realização de um sonho. Devolver a expectativa de vida melhor não tem preço. Depois do projeto elas nem adoecem mais. É a devolução de um sonho, a devolução da vida. Digo que elas são minhas flores e hoje se transformaram num jardim cheio de vida e exalando perfume, finaliza.
Ana Paula Bezerra
Secretaria de Estado de Comunicação
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