Patrimônio: os herdeiros de Noza na arte com madeira

Associação de artesãos de Juazeiro congrega mais de 150 mestres no trabalho de imprimir o imaginário da região
Diomar Dantas, faz tempo, perdeu o sobrenome: é Diomar das Veias, um dos mais de 150 artesãos reunidos hoje no Centro de Cultura Popular Mestre Noza, de Juazeiro do Norte. Como o anfitrião, ganhou nova identidade pela arte. Com ele estão também os mestres Zumbi, Raca, Gil, Cícero dos Flandres, Francisco Cardoso. Alguns, tornaram a própria família um escola, como o artesão em madeira Manoel Graciano e a artesã de barro Maria Cândido, ambos já inspirando a terceira geração de artistas.
Centro cultural homenageia mestre e mantém ativa a tradição da escultura fotos: Eduardo Queiroz
O centro de cultura é o nome fantasia para a Associação dos Artesãos de Juazeiro do Norte, criada pouco mais de um ano após a morte de Noza, sob o incentivo da Fundação Nacional das Artes (Funarte). Desde então ocupa as instalações da antiga cadeia pública de Juazeiro do Norte, na Rua São Luís, 95, no centro da cidade.
Aqui, quando chega um artesão com um trabalho interessante, nós sempre acolhemos, fornecemos matéria-prima, espaço para ele trabalhar. Se o que ele faz estiver na nossa linha, sempre é bem-vindo, garante Diomar, explicando o funcionamento da associação.
O Centro Mestre Noza, além de espaço para exposição e venda, com peças. Expostas nas antigas celas, é também oficina para alguns dos artesãos e funciona emprestando matéria-prima, quando necessário, comprando e revendendo as obras dos mestres. Além das vendas no local, recebe encomendas de galerias, de pessoas interessadas e organiza a participação dos artesão em feiras de diversos estados.
Tradição
De Mestre Noza, Diomar explica que conhece apenas as histórias e sua obra, através de exposições que visitou. De Noza, o acervo da associação possui uma imagem em madeira do Padre Cícero. Na primeira sala do centro, fica o Acervo Mestre Noza, com peças dos mestres mais antigos e que não são vendidas, apresenta.
Foi a partir do trabalho da associação que tomou contato com a arte em madeira e, em 1997, começou a produzir. Meu vizinho era membro. Eu fiz umas peças, ele pediu pra vir mostrar, eles compraram, fiz mais e daí pra cá não parei mais. Antes, eu morava aqui, mas não sabia nem que esse centro existia, conta Diomar, que trouxe ainda sua mãe e uma irmã.
As cenas de mulheres idosas em madeira, que lhe renderam a alcunha de Diomar das Veias, conta, vieram com o passar do tempo e foram adotadas como marca pela aceitação que tiveram. Atualmente, estou trabalhando em 10 peças encomendadas pelo museu de Washington, orgulha-se o artista.
Estilos
O trabalho dos artesãos do centro, embora seja feito majoritariamente em madeira, possui variedade de estilos e matérias-primas. Utilizam também barro, para a composição de cenas e máscaras, por exemplo, cimento, para santos em grandes proporções, e lata, o chamado flandres, que dá origem a brinquedos.
Enquanto termina uma santa em cimento, medindo cerca de um metro e meio e já vendida por R$ 3 mil, José Everaldo, artesão de 26 anos, garante fazer qualquer coisa em qualquer suporte. Trabalha com arte desde os 13 anos, quando começou em cursinho realizado no Horto.
Cada um aqui tem o seu segmento. Eu trouxe o barroco para cá, analisa Sebastião Francisco de Lima, nome artístico Gil, um dos mais antigos em atividade, que produz santos em madeira seguindo os traços de mestres barrocos. Gil faz parte da associação há 26 anos e hoje, por uma errância do destino, mora no centro Mestre Noza.
Aprendi a arte aos 14 anos, com meu tio, Edval Pereira Rosa, que mora em Salvador, e já repassei para um bocado de gente aqui. Outros, como o Beto Caetano, tem um trabalho de um traço simples, original. O Severino Sousa é um dos mais cotados com São Jorge. Cada um tem seu relevo, suas tomadas e posições, ilustra. Gil lembra que anos atrás chegou a exporem São Francisco, na Califórnia.
A associação possui blog, página no facebook, email (mestrenoza@gmail.com) e um telefone (88 - 3511.3133) pelos quais podem ser efetuadas encomendas. Hoje, não dependemos de nada e, sim, de nós próprios, orgulha-se Gil.
Mais informações:
Centro de Cultura Popular Mestre Noza (Rua São Luís, 96, Centro - Juazeiro do Norte). Aberto de 7h30 às 18h, exceto aos domingos. Contato: (88) 3511.3133
Fábio Marques
Enviado ao Crato
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