Mercado do surfe motiva surfistas que fabricam pranchas a empreenderem em um negócio próprio


Florianópolis conta com shapers que escolheram a cidade principalmente por causa da variedade de praias e hoje produzem para todo o Brasil e exterior
Letícia Mathias
FLORIANÓPOLIS
As praias que cercam a Ilha de Santa Catarina atraem surfistas de todos os cantos do país e do exterior. A mesma onda também traz os shapers, profissionais que dão forma as pranchas de surfe. Não há estudos específicos que mensurem a produção de pranchas em Florianópolis. Mas, nos comentários dos adeptos do esporte, a cidade é referência no país e tem reconhecimento mundial no produto. O Notícias do Dia, encontrou 12 fábricas, na maioria artesanal. Nesse mercado com domínio da informalidade, em que os conhecimentos são tradicionalmente repassados na prática, de um colega para o outro, a profissionalização do trabalho e do negócio ganha força na Capital.
Rosane Lima/ND
Felipe Mendes começou o negócio sozinho há dez anos e hoje conta com cinco funcionários
Um exemplo é o shaper Felipe Mendes, 30. Ele começou a surfar na adolescência em São Sebastião, litoral Norte de São Paulo, e, em 1995, começou a trabalhar com pranchas de surfe. Três anos depois, ele criou sua própria marca,a FM Surf, mas trabalhava para outras empresas. Em 2000, veio para Florianópolis e, em 2003, passou a fabricar apenas pranchas da própria marca. O shaper que já era credenciado pela Superintendência do Trabalho Artesanal, registrou a empresa oficialmente em 2008.
No início do negócio, o shaper investiu cerca de R$ 30 mil e trabalhava sozinho. Produzia de 15 a 20 pranchas por mês. Quando tinha muito trabalho, Mendes contava com a ajuda de conhecidos. Hoje a FM Surf tem cinco funcionários e produz em média 100 pranchas por mês e, além de vender em todo Brasil, também exporta para os Estados Unidos, Espanha e Itália.No meio da produção, não há diferença de trabalho entre patrão e funcionários, mas sim acúmulo de deveres. Mendes é o único shaper. De bermuda e chinelos, ele auxilia e ensina os funcionários a laminar, lixar e pintar, pois conhece todo o processo de produção. Quando a produção é intensa, como no verão, quando a demanda aumenta em até 50%, o trabalho artesanal de Mendes se estende para depois das 22h.
É preciso gestão para qualificar setor
O empresário e surfista Felipe Mendes é especialista na produção e personalização artesanal de pranchas de surfe, foi um dos primeiros shaper a introduzir as stand up paddles (pranchas com remo) no Brasil. Para apurar seu lado empresário, Mendes se filiou à ACIF (Associação Comercial e Industrial de Florianópolis) e realizou cursos ligados ao empreendedorismo, mas critica a falta de estudos de mercado sobre o meio em que atua.
A maioria dos shapers não formalizam sua produção ou empresa. De 100, podemos dizer que só 10 tem registro. Umas das questões difíceis são os tributos e encargos que gastamos, principalmente nas questões trabalhistas. Faltam também estudos do mercado.
Por outro lado, o segmento movimente bem a economia. Segundo dados da Ibrasuf (Instituto Brasileiro de Surf) o setor cresce 10% ao ano e movimenta cerca de R$ 8 bilhões no país, gerando em média 1,5 milhões de emprego. A necessidade de qualificar a gestão desse tipo de negócio fez o Ibrasurf abrir em 2008 o curso Surf - Administração, Marketing e Gestão de Negócios, realizado na USP (Universidade de São Paulo), e já formou 600 pessoas.
Profissionais da área aprendem na prática
A dificuldade de mensurar esse mercado na cidade (não há um número oficial) é justificada pela quantidade de empresas de fundo de quintal, que em sua maioria produzem bons materiais, mas não são registradas como empresas. Porém, é dessas pequenas produções que tem vindo os grandes shapers e empresários. Como não há um curso para aprender a fazer pranchas, o aprendizado é pela experiência. Todos os shapers-empresários que trabalham com a fabricação de prancha, seja ela grande ou pequena, expressiva ou nem tanto na economia, aprenderam fazendo, olhando outros.
O comércio do surfe em Florianópolis começou entre o fim da década de 1970 e início dos anos 80, quando começaram os campeonatos de surfe na cidade. Em 1975 foi realizado a primeira disputa na praia da Joaquina, que contava com a participação de amadores em sua maioria. Em 1986 foi a vez do primeiro campeonato internacional e a partir daí começaram a crescer as fábricas de prancha. Segundo o técnico do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) da Grande Florianópolis e surfista Januário Serpa, 51, os campeonatos começaram a trazer gente de fora e gerar uma gama de atividades econômicas.
Assim, a produção de pranchas se diversificou, passando para às pranchas de surfe com três quilhas, as de wind surf (prancha à vela) até o stand up padlle. Segundo o Sebrae, o valor estimado, para o empreendedor iniciar o negócio é de R$ 26 mil. A previsão de faturamento bruto inicial é de R$ 10 mil. Não há números específicos de mercado do surfe, mas sabemos que é crescente. A empresa passa a ser gerida como qualquer outra de diferente setor e, para sobreviver, tem que ter gestão e controle financeiro, afirmou Serpa. O Sebrae oferece informações sobre como abrir uma empresa no ramo, desde plano de negócio a equipamentos necessários para a fabricação.
Reduto das pranchas artesanais
A maioria da produção em Florianópolis é artesanal. Os surfistas apontam diferenças entre as pranchas feitas por encomenda, de maneira personalizada, e as fabricadas em série. Mas ser artesanal não significa não usar tecnologia, o que diferencia é a maneira como é produzida.
Rosane Lima/ND
Rodrigo Alvarenga fabrica pranchas de alta performance para competidores
Em escala industrial, no Brasil, uma empresa produz em média de 200 a 500 pranchas por mês. Em produções da China, chega a 1.200 pranchas/mês. Mas estas, em sua maioria, não são feitas por surfistas, característica indispensável de um shaper para aqueles que dominam as ondas. Em uma produção artesanal, em média, são feitas de 60 a 100 pranchas por mês. O trabalho é feito de acordo com as necessidades do cliente.
Rodrigo Alvarenga, 51, natural de Fortaleza, começou na profissão aos 14 anos. Chegou à Florianópolis com 19 anos, quando o surfe não era tão popular. Mas nessa época ele já tinha passado por muitas oficinas, inclusive na Califórnia e dominava o trabalho de shapear, desenhar,recortar e formar as pranchas. Assim como outros, o surfista veio para a Capital por causa do interesse do surfe na região. Uma das vantagens de estar em Florianópolis é a possibilidade de testar os produtos em dezenas de praias e de diferentes ondas.
Em 1982, abriu sua primeira empresa, fechou para trabalhar como shaper por seis meses no exterior. Hoje ele trabalha praticamente sozinho, com pranchas de alta performance para competidores. Uma barreira do mercado apontada por Alvarenga é a falta de mão de obra.
Não existe mão de obra, a gente tem que aprender e passar o conhecimento pra outro. O problema é que a gente ensina e depois os caras vão embora, trabalhar em grandes empresas, reclama. Ele conta que já fez curso de empreendedorismo, mas teme pelo mercado no futuro: O brasileiro não valoriza o trabalho local. Infelizmente o negócio está indo para as mãos de quem não surfa e isso é ruim. Como alguém que não surfa vai entender de prancha?, questiona.
O desafio da qualidade na produção em escala
A Tropical Brasil, empresa fundada em 1981, nasceu em Florianópolis e é considerada a maior empresa de fabricação de pranchas de surfe da América Latina. Apesar do proprietário, Avelino Bastos, 53, não falar sobre os números de sua produção nem sobre o faturamento, ele afirma que o mercado está em constante expansão. Florianópolis é uma cidade com maior número de pranchas por habitante. Rio de Janeiro até tem mais fabricantes, mas se comparar com a população, a produção per capita aqui é maior, afirmou.
Débora Klempous/ND
Dono da Tropical Brasil, Bastos acredita que profissionalização abre mercado
Bastos montou a empresa na década de 1980 e hoje produz prancha para lojas multimarcas do Brasil, Europa e Japão. Ele afirma que o mais difícil da produção em escala é conseguir manter a qualidade. Segundo Bastos, um dos diferenciais da Tropical Brasil é alcançar um padrão criterioso. Para isso, investe no uso de tecnologia em todo o processo de produção, desde automação até o produto final. Investimos em automação e tecnologia de precisão que fabricantes menores não conseguem ter. Investimos menos em equipe e mais na tecnologia que multiplica a capacidade do indivíduo, afirmou.
O empresário conta que a fabricação de prancha é mais do que um ato de empreendedorismo. É uma vocação. Por isso, a marca que já produziu mais de 40 mil pranchas, vem crescendo e se consolidando há mais de 30 anos. Comecei sozinho, fui diversificando e montando uma equipe progressivamente. Hoje a fabricação de pranchas ainda é muito amadora. O nosso papel é de profissionalizar o segmento para ganhar ainda mais campo. Tem muito pra crescer, tudo é oportunidade para profissionalizar o mercado que é ainda é muito informal, observou.
Fábricas de prancha em Florianópolis
:: FM Surf
Shaper: Felipe Mendes
Endereço: Servidão Revoar das Perdizes, 407, Campeche
Mais informações: www.fmsurf.com.br
:: Alvarenga Surfboards
Shaper: Rodrigo Alvarenga
Endereço: Rua Cecília Jacinta de Jesus, 536, Rio Tavares
Mais informações: www.alvarengasurfboards.com.br
:: Tropical Brasil
Shaper: Avelino Bastos
Endereço: Estrada Geral do Rio Tavares, 1398, Rio Tavares
Mais informações: www.tropicalbrasil.com.br
:: Guga Arruda designer
Shaper: Guga Arruda
Endereço: Rodovia Doutor Antônio Luiz de Moura Gonzaga, 4.466, Rio Tavares
Mais informações: www.powerlightsurfboards.com.br
:: Lonelines surfboards
Shaper: Emerson Santiago
Endereço: Rua geral dos Açores/nº, Praia dos Açores
Mais informações: www.lonelines.com.br
:: MB Surfboards
Shaper: Marcelo Barreira
Endereço: Rua João Gualberto Soares, 9777, Moçambique
Mais informações: www.mbsurfboards.com
:: Néu SurfBoards
Shaper: Neu de Franceschi
Endereço: Rua do Gramal, 759, Campeche
Mais informações: www.neusurfboards.com.br
:: Powerage
Shaper: Gilmar Bulhões e Sérgio Bulhões
Endereço: Avenida Pequeno Príncipe, 495, Campeche
Mais informações: www.powerage.com.br
:: Schlickmann
Shaper: João Schlickmann
Endereço: Rua das Araras, 83 - Lagoa da Conceição -
Tel: 3232 1555
Mais informações: www.schlickmann.com.br
:: Seapoxy
Shaper: Alzair Russo
Endereço: Rodovia João Gualberto Soares, 9072, Rio Vermelho
Mais informações: www.seapoxy.com.br
:: Skull Surfboards
Shaper: Fabio Gouveia e Rafael Simões
Endereço: Servidão Aldo Flores da Cunha, 123, Rio Vermelho
Mais informações: www.skull.com.br
:: SRS Surfboards
Shaper: Rodrigo Silva e Alan Emery
Endereço: Rua João Manoel dos Santos, 203 - Armação do Pântano do Sul
Mais informações: www.srssurfboards.com.br
http://ndonline.com.br/