Livro resgata tradições mineiras e revela segredos sobre o popular queijo artesanal

Livro resgata tradições mineiras e revela segredos sobre o popular queijo artesanal
Governador Anastasia prestigiou lançamento do livro de Maria Coeli, no dia 28 de setembro
Um resgate das tradições mineiras que nos convida a viajar por antigas fazendas e descobrir os segredos da produção de um dos ícones da gastronomia de Minas: o queijo artesanal. E essa viagem só poderia ser conduzida por alguém que conhece bem o universo rural. Nasci em Serro, na Fazenda Engenho da Serra, portanto, sou roceira de raiz e sempre vivenciei a lida dos currais, diz a professora Maria Coeli Simões Pires. Secretária de Estado de Casa Civil e de Relações Institucionais, ela acaba de lançar Memória e Arte do Queijo do Serro, livro com ares de obra de arte que agrada tanto os apreciadores da iguaria, quanto quem valoriza as riquezas materiais e imateriais de Minas. Com o sucesso da publicação, Maria Coeli foi convidada para participar do Cozinhando com Palavras, projeto que faz parte da Feira do Livro de Frankfurt, que acontece de 9 a 13 de outubro, na cidade alemã.

Mestre e doutora em Direito Administrativo, Maria Coeli confessa que nunca se esqueceu de suas origens rurais. Surgiu, assim, a ideia de usar as palavras para trazer à tona suas lembranças da primeira infância, as conversas e causos de família em torno desse universo. Mas de uma forma estruturada. Como sua dissertação de mestrado seria fundamentada no tombamento e na preservação do patrimônio cultural, ela decidiu resgatar a história da fabricação do queijo artesanal do Serro. A pesquisa ganhou mais corpo a partir de entrevistas com os produtores da cidade, além da reunião de fotos e documentos históricos que remontam o início da produção queijeira na região.

Em entrevista à Agência Minas, Maria Coeli fala um pouco mais sobre essa experiência e revela sua íntima relação com o tema.

Qual a sua ligação com o universo rural?
Nasci em Serro, na Fazenda Engenho da Serra, portanto, sou roceira de raiz e vivenciei a lida dos currais. Graças ao meu pai, sempre estive muito atenta ao universo rural. Passei minha primeira infância na fazenda. Como meu pai era muito cuidadoso, falava sempre dos familiares, dos outros fazendeiros e levava os filhos desses fazendeiros para nos visitar. Colocávamos muita atenção nessa cadeia, nesses laços da área rural. E eu, por caminhos outros, acabei me dedicando muito ao tema da preservação do patrimônio cultural, isso inspirada no próprio pano de fundo da minha terra, que é o Serro. Sempre tive um olhar de muita cumplicidade com a ambiência rural e com a ambiência da cidade em que eu me inseri nos meus primeiros anos de infância e depois na adolescência.

Como surgiu a ideia de escrever sobre a produção artesanal de queijo do Serro?
Quando fiz o meu mestrado na UFMG, desenvolvi uma dissertação sobre o tombamento e a preservação do patrimônio cultural e, em 2001, quando houve mais uma crise do queijo, com ameaças que vinham de campanhas sanitaristas, senti que o queijo realmente ameaçado e, para mim, ele tinha um valor simbólico muito significativo. Então, me propus, resgatando registros, anotações de família, até mesmo porque sempre estivemos em torno do queijo, com café com prosa, desenvolvendo ali nossas relações familiares. E contei com a colaboração do irmão queijeiro, da sobrinha queijeira, na pesquisa mesmo, resgatando elementos sobre a arte queijeira e reunindo anotações. Assim, em 2001, eu acabei me dedicando de maneira especial à defesa do queijo.

É verdade que essa pesquisa acabou contribuindo para que o queijo artesanal conquistasse o status de patrimônio imaterial do Brasil?
O Serro teve a colaboração muito importante do então secretário de Estado de Cultura, Ângelo Oswaldo Araújo dos Santos, que era membro do Conselho Deliberativo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e serrano honorário. Em razão disso, ele também tinha uma cumplicidade com as questões da cidade. A partir da pesquisa que eu tinha feito, por intermédio dele, conseguimos encaminhar a proposta de registro do processo artesanal do queijo do Serro como patrimônio imaterial do Brasil. Como secretário, ele também encaminhou o documento ao Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha), que fez com que o bem cultural que inaugura o Livro dos Saberes de Minas Gerais fosse o registro do processo artesanal do queijo do Serro. O registro pelo Iphan é de 2008, mas tem toda essa história, que começa em 2001. Esse processo foi ganhando novos contornos, suplementos novos de pesquisa e, ao final, tivemos o reconhecimento do processo artesanal do queijo em diversas regiões: a do Serro, a da Canastra e a do Salitre.

No início, chegou a pensar que sua pesquisa ganharia tamanha proporção?
Fico muito orgulhosa de o processo ter chegado com essa solução que prestigia a mineiridade, porque a ligação do mineiro com o queijo é uma coisa extraordinária. No lançamento do livro, fiquei muito emocionada, porque tivemos a presença de muitos queijeiros das regiões mais tradicionais de Minas, do setor governamental que apoia o queijo, de autoridades importantes, dos serranos e a presença do governador Antonio Anastasia, que realçou muito a importância do resgate da culinária mineira. Fico muito feliz de integrar esse movimento com algo concreto, que é essa contribuição para o resgate do queijo, uma iguaria que está em todas as mesas.

Qual o futuro do queijo artesanal de Minas?
Temos caminhado muito. É preciso ter paciência. Como estou nessa luta há muitos anos, tenho observado, como gestora de políticas públicas, que o caminho de resgate, de valorização do queijo está avançando muito. Nós já temos reconhecimento de origem, temos alguns institutos aplicados, além de uma mudança de postura do Ministério da Agricultura e algumas resoluções por meio de portarias mais recentes. As pesquisas têm ampliado muito o foco. Antes, só tínhamos pesquisas que levavam em conta características físicas e químicas do queijo. Hoje, ele desperta o olhar do estudioso por outras vertentes. Já temos muito, sobretudo na área de tecnologia de alimentos, sob o enfoque da história, da geografia. As pessoas pensam que é regionalismo da minha parte, mas sei que o queijo do Serro e de outras regiões tradicionais de Minas pode fazer o caminho dos congêneres mais famosos do mundo. Isso depende de política pública, de sensibilização da comunidade e da própria sociedade para que as pessoas compreendam que isso é um fator de identidade também. Esses espaços que se abrem, como é o caso da Feira de Frankfurt, que vai dar espaço para a literatura sobre queijo, têm uma potencialidade que as pessoas ainda não conseguiram perceber. Vamos demorar um pouco ainda, porque é um processo, um caminho a percorrer.

Que outras questões relacionadas à produção do queijo artesanal ainda precisam de atenção?
Eu gostaria de ver estudos sobre a questão da madeira. Eles fizeram um divórcio do queijo com a madeira que é incompreensível. Fico muito pesarosa de ver bancadas, queijeiras maravilhosas da minha terra enfeitando outros salões, quando elas deviam estar nas queijarias. As formas queijeiras acabam funcionando mais do que um recipiente. Elas não estão apenas no arsenal de produção. Ainda quero ver o retorno das bancas queijeiras de madeira, com as formas de madeira, as prateleiras, os caixotes de carregamento, e isso pode ser feito em perfeita harmonia com as exigências sanitárias, que são importantes.

E qual a solução para esse problema?
Há espaço para a ciência, é lógico, e nós não temos a pretensão de dizer que elas devem estar afastadas, até porque, hoje, nós trabalhamos com competitividade e outras bandeiras. Mas precisamos ter uma sabedoria muito forte para não matarmos aquilo que é o bem de raiz. E o desafio é saber como a França consegue usar a madeira. Temos um desafio muito grande. É uma tarefa muito coletiva e fico muito feliz quando vejo que o próprio governador tem essa compreensão a respeito do queijo e se dispôs a fazer o posfácio do meu livro de uma forma carinhosa, mas também arrojada, porque ele sabe que não está falando só do queijinho mineiro, mas de um produto que é muito importante e que não deve nada a produtos congêneres de países muito desenvolvidos e que sabem preservar sua cultura.
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