Ex-seringueiro descobre vocação no artesanato e abre ateliê no AC

Antônio Galdino do Nascimento deixou o seringal para morar em Feijó.
Em 2012, o ex-seringueiro foi eleito o Melhor Artesão Acreano.
Caio Fulgêncio Do G1 AC
Distante a 336 km de Rio Branco, o município de Feijó tem pouco mais de 31 mil habitantes, a terceira cidade mais pupulosa do Acre. É nas terras banhadas pelo Rio Envira que vive o ex-seringueiro Antônio Galdino do Nascimento, o Camucim, de 46 anos.
A história é parecida com a de muitos outros seringueiros que deixaram a floresta em busca de melhores condições de vida na zona urbana. Camucim deixou o seringal onde nasceu e chegou a Feijó em 2002. Segundo ele, a seringa (árvore da qual se extrai o látex para produção da borracha) havia acabado e o trabalho com a agricultura não era possível, principalmente devido aos estudos dos filhos.
Fui seringueiro, cortei seringa até os 25 anos. A seringa caiu e pensei com que ia viver. Tentei viver da pesca também e não deu. Decidi vir para cidade em busca de melhoria. Eu precisei ir atrás de objetivos para os meus filhos. Minhas filhas precisavam de escola, lembra Camucim.
O artesanato surgiu na vida do ex-seringueiro com a fabricação de colheres de madeira para uso na cozinha, assim que chegou a Feijó. Foi quando o número de pedidos começou a crescer que Camucim conseguiu abrir uma oficina, onde morava, e passou a esculpir outros artefatos. Em 2003, pôde fazer um curso de capacitação para aprimorar o trabalho e já possui uma empresa do ramo: a Art Camucim.
A arte de Antônio Galdino não ficou restrito ao interior do estado. O artesão lembra que os primeiros animais esculpidos foram passáros, feitos em homenagem ao filho mais velho. Essa foi a primeira exposição realizada por Galdino. Eu fui, levei meus passarinhos e vendi bastante. O pessoal começou a pedir. Hoje, sou criatividade. Faço e mando para uma loja no Mercado Velho [em Rio Branco]. Quando eu vejo que já vendeu muito e fica sem graça, logo eu invento outra coisa, diz.
Atualmente, são tartarugas, tucanos, tatus, pacas, jacarés e peixes, além dos famosos pássaros. Quem olha as peças produzidas artesanalmente pelo ex-seringueiro entende de imediato quais são suas referências. Mesmo assim, Galdino se orgulha em dizer.
A inspiração é a floresta. Eu nasci e me criei vendo [os animais] e não saiu mais da mente. Me perguntam se eu tenho um livro [para me basear] e eu respondo que tudo que produzo é da minha cabeça. Eu tenho 25 anos de floresta. Convivendo e remoendo a floresta. E quando eu vim para a cidade, eu já trouxe aquilo comigo. Está gravado na mente, explica o artesão.
Do seringal para Feijó. De Feijó para Rio Branco. Da capital acreana até o Rio de Janeiro (RJ). Foi lá que, por meio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Camucim ganhou o certificado de Melhor Artesão Acreano de 2012, concorrendo com vários outros trabalhos de artesanato produzidos em todo o Acre. Feliz, o artista que só estudou até o 5º ano do ensino fundamental reconhece que esta é sua vocação.
É vocação. Eu aprendi sem ninguém me ensinar e para mim é um privilégio. Eu acordo pensando em fazer um bicho e à noite, ele está pronto. É uma inspiração para mim. Deus me deu isso e eu confesso que sou o homem mais feliz do mundo, finaliza.
G1