Economia criativa vale ouro

Economia criativa vale ouro
DIÁRIO DA MANHÃ
ANA FLÁVIA MARINHO
Há 20 anos, as mãos de Márcio Barbosa conheceram o prazer do artesanato. Joalheiro e filho da cidade de Pirenópolis, o artesão de 35 anos vive, há 18 anos, dos produtos que faz e comercializa em prata, ouro e pedras naturais. Entre brincos, colares, pulseiras e outros adornos, seu ateliê oferece peças de R$ 35 a R$ 5 mil.
Márcio é um dos 30 artesãos que participam da primeira edição da Expo Joias, promovido pela Associação de Cultura e Artes de Pirenópolis e Associação de Jovens Empreendedores e Empresários de Goiás (AJE Goiás), com apoio da Secretaria de Indústria e Comércio de Goiás (SIC), Fundo de Fomento à Mineração (Funmineral) e Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae Goiás). O evento, que finaliza hoje, teve, nos quatro dias de programação, mais de três mil visitantes, entre turistas e público em geral.
O trabalho de Márcio começou quando o artesão visitou um dos ateliês da cidade em que vive. Encantado com o que viu, passou a tentar suas próprias produções. Mais tarde, conheceu Amazonas Fernandes, com quem hoje divide a vida e a profissão.
O casal é um exemplo dos cerca de 200 artesãos da cidade, que vivem desse tipo de artesanato. A atividade de manipular metais e minerais, e transformá-los em joias, movimenta cerca de R$ 6 milhões da economia local e mais de R$ 20 milhões em Goiás, conforme estimativa da presidente da Associação da Cultura Artesanal de Pirenópolis (Acap), Delma de Melo. A Acap, criada há oito anos, tem uma média de 94 associados, entre grandes, médios e pequenos empreendedores. Só no segmento de joalheria, são gerados, em média, 300 empregos diretos e 450 indiretos. A maioria dos artesãos sustenta a sua família somente com essa profissão.
Economia criativa
As atividades ligadas ao exercício da imaginação, explorando seu valor econômico, são enquadradas como economia criativa. Estão inclusos processos envolvendo criação, produção e distribuição de produtos e serviços, usando o conhecimento, a criatividade e o capital intelectual como principais recursos produtivos.
Pirenópolis está duplamente agraciada dentro dessa vertente. Com turismo e artesanato fortes, a população local possui fonte de renda ligada à sua capacidade de inovar e ao conhecimento adquirido. Os joalheiros, especificamente, resgatam técnicas tradicionais do trabalho de ourives, para a construção de uma cadeia produtiva dinâmica, que gera emprego e renda, atraindo, além de compradores das peças, visitantes para a cidade.
Delma de Melo revela que o ganho com comercialização de peças artesanais é bastante variável. Ainda assim, acredita que, em média, nenhum artesão que trabalha com fabricação de joias recebe menos de R$ 3 mil por mês. Em alguns casos, esse número chega a ser mais que o triplo.
Décio Coutinho, gestor de projetos com ênfase em cultura e criatividade, e superintendente executivo da Secretaria de Estado da Cultura (Secult Goiás), explica que não existe um número oficial de quanto da economia estadual é movimentada com a economia criativa. Esse é um assunto novo, no Brasil e no mundo. Somente desde 2011, temos uma secretaria no Ministério da Cultura que trata desse assunto. No final de 2013, foi criado o Observatório de Economia Criativa do Estado de Goiás. A previsão é que, em quatro anos, se tenha um mapeamento oficial sobre o assunto.
Apesar disso, uma pesquisa divulgada pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Ferjan), estima que o núcleo criativo gera um Produto Interno Bruto (PIB) equivalente a 2,7%, do total produzido pelo Brasil. Nós vivemos no mundo uma transformação importante, em que tem se valorizado mais os bens imateriais do que os industriais. A economia material está perdendo importância para a economia imaterial, que está ligada à cultura e à criatividade, explica Décio, referindo-se à tendência notada de valorização a essa vertente.
Produção
Márcio e Amazonas são especialistas em filigrana - técnica de utilização de fios para fabricar as joias. O preenchimento, que lembra trabalhos feitos em renda, demanda tempo e muita dedicação, já que a delicadeza do material dificulta o manuseio. Os elementos do cerrado, como a flor de pequi, trazem inspiração para os objetos únicos, criados, fora de série, para consumidores exigentes. Márcio explica que, por se tratar de uma forma artesanal de joalheria, cada peça é única e tem seu valor.
A escolha do material, além de vinculado à disposição da região, está ligada ao custo final de cada peça. Para quem é artesão, é praticamente igual trabalhar com ouro ou prata. Mas a prata é mais acessível, o ouro onera o valor final, revela Márcio. As pedras naturais, que também podem ser encontradas em algumas peças, é outro material que acaba elevando os preços finais.
Público
As peças produzidas em Pirenópolis, que chegam a levar até meses para ficarem prontas, geralmente têm, como comprador final, os turistas, que querem levar para casa objetos que remetam à cidade. Vendo mais para pessoas de fora. Quando vendo para alguém daqui, fico muito feliz, já que a concorrência é enorme. Praticamente todos os moradores têm um joalheiro na família, comenta Márcio.
Artesão há mais de 20 anos, Antônio Honório de Melo também é um exemplo que deu certo. Sem loja para expor suas peças, o artista foca no turismo local e expõe o que fabrica em restaurantes e pousadas de Pirenópolis, além das feiras locais nos finais de semana. Aos 42 anos de idade, relata que a paleta de artigos pode ser ampliada a qualquer momento, já que atende pedidos para produzir desde anéis, ou brincos, até prendedores de cabelo, ou outros adereços. Os preços também variam de acordo com o gosto, dependendo da quantidade e tamanho das pedras e dos metais.
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