Cristina Franco lança em Salvador coleção criada em parceria com artesãos e designers do Pará


Seu mais novo projeto, realizado em parceria com profissionais do Pará, será apresentado no mês que vem, na forma da coleção de biojoias Raízes
Gabriela Cruz (gabriela.cruz@redebahia.com.br)
Um dos principais nomes do jornalismo de moda brasileiro por mais de três décadas, Cristina Franco nunca se contentou apenas em noticiar. Apaixonada por design desde sempre, ela tem usado seu conhecimento em moda no que diz respeito também a consumo para fomentar artesãos e designer de todo o país. Seu mais novo projeto, realizado em parceria com profissionais do Pará, será apresentado no mês que vem, na forma da coleção de biojoias Raízes.
Confira detalhes na entrevista a seguir.
Como surgiu o projeto Raízes?
A base dessa história é em Belém do Pará e reúne diversos saberes e fazeres. Você tem pessoas com formação em design, mestres artesãos com a sabedoria de gerações, ourives. Meu trabalho é buscar inclusão produtiva. Direcionar esses produtos para o mercado, para que possam ser absorvidos. Levo conteúdo, uma atualização que o chamado mercado de moda pode absorver, porque não adianta fazer um produto por fazer se você não tem condição de incluí-lo. E um dos grandes problemas do artesanato brasileiro e o trabalho manual - existe uma diferença entre as duas coisas - é a inclusão produtiva. É isso que eu faço, curadoria. E essa história começou há três anos. Eu tinha um espaço de moda que levava para os eventos em galerias de arte, essa coisa artsy a gente já faz há alguns anos. Então tinha um espaço chamando Mãos, que não era para vendas. Eu colocava no Fashion Business do Rio, uma vitrine do trabalho feito à mão, e numa dessas apresentações eu convidei o Pólo Joalheiro São José Liberto para participar. Eles aceitaram, vieram e a gestora do projeto me convidou, em 2011, para fazer uma trabalho de sensibilização junto a esse grupo na área de design. Trabalhei com eles, fizemos uma coleção que foi bem sucedida para Rio+20. Expusemos na loja do Copacabana Palace e na Casa Cor Rio. Depois disso, por uma série de razões, decidi não mais trabalhar como consultora do Pólo e resolvi fazer um trabalho solo com pessoas que havia detectado e montamos um pequeno grupo, no qual cada um entra com sua vocação. E assim a gente vem trabalhando. Fizemos uma exposição no Rio de Janeiro, outra em Brasília e agora em Salvador.
Qual a principal característica do trabalho desenvolvido pelo grupo?
Nosso mote é: homem e natureza, grande parceiros, porque a gente sabe que em tudo temos que ser parceiros da natureza. Usamos muitas coisas de refugo das floresta que a gente transforma em objetos de adorno, como pedaços de graveto. Um colar feito com crina de cavalo, por exemplo, pode ser um pendente, um chaveiro, um objeto para você colocar em cima da mesa. Muitas das nossas biojoias podem ser objetos de adorno também.
As peças reúnem várias técnicas e tem mais de um uso?
A gente quer trabalhar com esse tipo de conceito. Temos peças, como uma pulseira, que são esculpidas em madeira por um artesão que recebem uma placa de prata feita por um ourives. Então você tem dois tipos de mão de obra que tem mais de uma função também, já que essa pulseira podem ser um objeto de adorno em cima de uma mesa. O colar Piracema, feito de curauá, que é uma fibra natural que aceita diversos tipos de tingimento, e escama de pirapema, também é decorativo. O colar de chifre de búfalo reúne a prata com a marchetaria, que na Amazônia é muito boa e a gente desconhece. A fivela feita a mão em madeira recebe azulejos produzidos no Maranhão inspirados nas casas dos senhores da borracha. São biojoias, cada uma com uma linguagem. Hoje está tudo muito integrado. Você pode ter um caminho de mesa maravilhoso e isso também ser um xale. Gosto muito disso e acho que hoje você cria muito no aspecto digital. Sinto muita falta do aspecto tátil e a gente trabalha também pensando isso.
Como surgiu o nome Raiz?
Aqui em Salvador, vamos fazer o lançamento na (multimarcas) Martha Paiva, no dia 8 de maio. Conheço a mãe de Sabrina (Furtado, dona da loja que leva o nome dela) há muitos anos, no Espírito Santo, e tenho muita admiração por ela. Também tenho muita simpatia por Sabrina e combinamos de fazer o evento próximo ao Dia das Mães. Nessa data vai acontecer também o Alphorria Day, que é um projeto da marca mineira de Edna Thibau, que eu conheço há mais de 30 anos. Isso tudo tem a ver com raízes. Com pessoas que se conhecem há muito tempo e que mesmo que não se vejam muito nutrem um carinho entre elas. Acho importante valorizar isso, homenagear as mães. Chamamos de Raízes porque família é isso. Vamos tentar sem menos distantes.
A coleção é formada por quais itens?
Colares, brincos, pulseiras, todo esse mix de adorno. Objetos em geral que são únicos, exclusivos.
Quando surgiu seu interesse pelo design?
Sempre me interessei muito. Depois que vim morar em Salvador, há 11 anos, fiquei mais próxima do Norte e Nordeste a coisa aumentou muito mais. Minha paixão por artesanato começou com arte indígena que eu estudei por muito tempo. Meu trabalho no Pará começou em cima da pesquisas do padre Galo, um jesuíta italiano que veio para o Brasil, depois se tornou arqueólogo e museólogo registrado, fundou um museu no Marajó e começou a estudar a arte marajoara. Ele saía coletando cacos de civilizações que já haviam acabado e fez um livrinho, que hoje está esgotado. A iconografia das biojoias vem da pesquisa do padre Galo. Muita coisa nossa do desenho marajoara é autêntico e vem da pesquisa dele.
Depois do lançamento de Raízes, qual o próximo passo?
Fomos convidados para expor em um projeto chamando Renda-se, de Isabela Guerra e Renata Hargreaves. A abertura será no dia 11 de junho, em Brasília, na véspera da abertura da Copa do Mundo. Ganhamos de presente um estande de 18 metros quadrados e vou poder levar diversas tipologias. Biojoias, filé, vou botar o povo todo lá. O que dará unidade será a qualidade, a criatividade e o design.
Como surgiu sua identificação com a moda?
A moda faz parte da vida desde que nasci. Fui criada por minha avó, que era uma pessoa muito elegante, e eu desde pequena comecei a gostar daquilo. Nas brincadeiras, eu não corria para o laço de fita não sair da cabeça. Eu também sempre gostei muito de escrever. Era professora de inglês, comecei a fazer produção de moda para diversos veículos e decidi que queria ser jornalista. Comecei na TV Globo 1979 para 1980, virei editora de moda, era a pessoa responsável pela identidade visual da empresa, quem vestia o quê. Depois fui ser correspondente internacional. Falava inglês, francês e italiano e isso ajudava. Quando começamos a cobrir os desfiles na Europa, o Brasil não entrava em desfile nenhum e eu pensei: a TV Globo é uma das maiores televisões do mundo e eu falo outras línguas, então porque não vão nos receber? Eu só podia receber um não e então eu ia à luta e sempre fui assim, apesar de não ter sido criada para isto, mas ao mesmo tempo a minha avó foi uma mulher tão moderna, que achava que a gente tinha que ter uma super-educação, aprender línguas.
Na sua opinião, onde o artesão brasileiro falha?
Não gosto de usar a palavra falha porque estamos falando de uma cadeia produtiva. No feito a mão em geral o gargalo está na inclusão produtiva. Quando você trabalha com artesanato de raiz, como um produto feito em bilro, em renascença, por exemplo, você pode inovar fugindo do que seria comum, como cama, mesa e banho pro dia a dia. Alguns designers brasileiros já fazem isso, mas são muito poucos e o artesão que está numa região muito remota e não tem acesso a uma informação mais atualizada, vai continuar fazendo aquele pano. Muitas vezes, ele não tem poder aquisitivo para melhorar a linha, que desbota se colocada na água... então você tem aí uma série de ruídos e buracos que são extremamente complexos. Temos uma riqueza de tipologias que estão perdendo força, os artesãos de raiz não querem mais trabalhar nisso porque não conseguem sobreviver . Isso é lamentável, por isso a gente escolhe trabalhar no nosso microcosmo com algo altamente qualificado. Não gosto muito dessa pralavra, mas a gente faz um trabalho artesanal para o mercado de luxo, porque não temos condição de investir em nenhum tipo de escala.
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