Brasil treina argelinos na produção de joias

Nesta semana, País inicia treinamento em projeto de cooperação com a Argélia. Especialistas brasileiros vão ensinar gemologia, ourivesaria, fundição e design, com foco nas pedras do Deserto do Saara.
Isaura Daniel
isaura.daniel@anba.com.br
Argelinos conheceram produção e minerais brasileiros
São Paulo - O Brasil começa na próxima semana uma capacitação que dará aos argelinos da região de Tamanrasset conhecimento para desenvolver a joalheria. A Argélia tem vasta oferta de pedras preciosas, principalmente no Deserto do Saara, mas elas não são exploradas. Vamos colaborar para que o mundo conheça as pedras do Deserto do Saara, afirmou o presidente da Associação Brasileira dos Pequenos e Médios Produtores de Gemas, Joias e Similares, Mineradores e Garimpeiros (Abragem), Harilton Carlos de Vasconcelos Sobrinho.
O país árabe trabalha com a ourivesaria em um ritual milenar, derretendo a prata no fogo atiçado pelo fole e a moldando na bigorna, um instrumento manual. Eles não utilizam as pedras porque não as lapidam, afirma Vasconcelos, que é coordenador do projeto com a Argélia. O objetivo, segundo o presidente da Abragem, é que eles aprendam a lapidar as pedras do Saara e possam utilizá-las tanto nas joias feitas segundo essa tradição milenar quanto nas que vão produzir a partir de técnicas mais modernas que serão ensinadas pelos brasileiros.
O projeto de cooperação, de iniciativa dos governos dos dois países, é executado pela Abragem e feito por meio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC). Na Argélia, inicialmente ele esteve nas mãos do Ministério de Minas, mas atualmente é levado adiante pelo Ministério do Artesanato. Quem o opera atualmente, no país árabe, é a Câmara de Artesanato de Tamanrasset, que é uma província no sul da Argélia. Na fase inicial do projeto, o interlocutor argelino era a Agência Nacional de Artesanato Tradicional (Anart).
Vasconcelos estará na Argélia para o início da capacitação, que deve começar na próxima sexta-feira (15), e que terá à sua frente uma dos maiores especialistas do Brasil nas áreas de geologia e mineralogia, Pérsio de Moraes Branco. A primeira etapa desta fase inicial do treinamento será focada em gemologia e dará noções gerais sobre o tema. As aulas ocorrem até o dia 30 de novembro. Ainda na fase inicial, mas em um segundo momento, os argelinos terão treinamento em lapidação artesanal e mecânica, por cerca de noventa dias.
A capacitação ocorre na unidade da Organização Regional de Geologia e Minas (ORGN). Além desta primeira etapa, haverá outras três, cada uma com cerca de noventa dias. A segunda será voltada para ourivesaria e fundição, a terceira para artesanato mineral e a quarta para design de joias. No total devem ser capacitados perto de 60 profissionais argelinos, que depois trabalharão como multiplicadores deste conhecimento.
O governo argelino está construindo uma escola voltada para a área e a ideia é que nela estes profissionais treinados pelos brasileiros possam dar aulas no futuro. O local tem seis mil metros quadrados e dois pavimentos, com 25 apartamentos que receberão estudantes de todas as partes do país árabe. A escola ficará na mão dos argelinos, mas segundo Vasconcelos, a Abragem estará à disposição em caso de necessidade. Já foi manifestado interesse, segundo Vasconcelos, de uma cooperação semelhante por outro centro de excelência na área que está sendo criado na província de Botna.
Matéria-prima e talento
Vasconcelos se mostra bastante entusiasmado com trabalho no país africano. De acordo com ele, a Argélia procurava cooperação na área há muitos anos e se identificou com o Brasil. Eles vão aproveitar esses minerais que têm e a qualidade do trabalho. Há muitos artesãos no país, eles cuidam muito desta área, têm até um Ministério do Artesanato, relata o presidente da Abragem. O Brasil deve levar profissionalização para o segmento, abrindo um novo setor produtivo, que poderá, inclusive, exportar joias e pedras lapidadas, segundo Vasconcelos.
O pontapé da cooperação foi dado em 2007. De lá para cá já ocorreram várias ações, entre elas a apresentação de joias e pedras brasileiras no Salão Internacional de Artesanato Tradicional e Artes da Argélia, em 2010. Também um grupo de argelinos veio ao Brasil conhecer a produção, museus e instituições de ensino que atuam na área, e brasileiros foram ao país árabe para ver a realidade local e dar um seminário voltado para o setor. Este tempo foi necessário também para algumas medidas formais, como assinatura de acordo, licitação e embarcação de equipamentos que viabilizassem os trabalhos, entre outras.
http://www.anba.com.br