Artesão cego produz rede em Tauá

Chico Paraíba, como é conhecido, não tem visão, mas fabrica o produto e vende em forma de consórcio
Tauá. Com uma produção de 20 redes por mês, o artesão Francisco Rodrigues da Silva, conhecido como Chico Paraíba, apura uma boa renda para auxiliar no sustento de sua família. Trabalhando em um tear móvel, fabricado por ele mesmo, ele trabalha na arte desde 1997, quando teve a perda total da visão. Além de produzir, cria alternativas próprias para comercialização do seu produto.
Para fabricar os itens coloridos e diversificados, Chico confeccionou seu próprio tear, que é móvel. As peças são produzidas tanto em sua residência como também nas feiras da cidade, na região ou em outros centros FOTO: SILVANIA CLAUDINO
Com problemas visuais desde o nascimento, o artesão foi perdendo a visão gradativamente, de modo que por volta dos 13 anos ficou completamente sem enxergar. A partir de 1993, Chico já não mais conseguia ver, e as dificuldades de trabalhar na roça - onde morava- se acentuaram, até que a limitação o impediu de continuar trabalhando.
Aos 52 anos, o artesão fabrica suas peças - em cordão de seda - em casa e onde estiver com o seu tear. Em casa, ele leva o equipamento para a calçada quando está com muito calor e ali fabrica suas peças. Traz novamente para dentro de casa, quando julga conveniente, e transporta também para o Centro de Artesanato, onde comercializa e expõe suas redes. Quando vai participar de Feiras na cidade, na região ou em outros centros, leva o tear e fabrica suas peças na hora em qualquer local em que estiver e for solicitado.
Criei os meus três filhos com essa arte, que gosto muito e que me ajuda no sustento da casa e da família. Faço sozinho e somente peço ajuda no final quando tenho que dar alguns nós na seda. Não acho difícil, para eu produzir é fácil, vender é que é mais difícil, frisa.
Venda
Para contornar os desafios da comercialização, Chico conta que criou alternativas próprias. Como o produto tem longa durabilidade, segundo ele em torno de 10 anos, as pessoas compram uma e demoram um bom tempo para comprar outra rede, exceto em casos de presente - o que levou o artesão a criar uma espécie de consórcio. De maneira informal, ele vende 40 redes por meio de negócio. Percorre vários locais oferecendo e vende o produto parcelado em 10 vezes.
As pessoas firmam o compromisso comigo e todos os meses me pagam R$ 12, referente ao valor da rede, que é R$ 120. É bom para mim, que tenho venda garantida para a minha produção e elas também, que pagam parcelado. Eu mesmo inventei esse jeito para vender o meu produto, ressalta.
Com material exposto também no Centro de Artesanato, Chico enumera que a arte já o levou para várias Feiras, locais em que sempre realiza boas vendas. Conta que não tem medo de enfrentar viagem em função da sua limitação visual. Basta que seja providenciado transporte e uma pessoa para esperá-lo.
Algumas pessoas que vêm a Tauá vão ao Centro de Artesanato e conhecem o meu trabalho, gostam e solicitam que vá participar de Feiras e eu sempre vou. Nunca me limitei e não tenho medo de me movimentar e viajar. Vou em frente com garra e vendo meus produtos, que são muito elogiados pelas pessoas.
Aprendizado
Chico aprendeu a atividade artesã em 1997, quando não conseguia mais trabalhar na roça e veio para a cidade. Nascido na localidade de Carrapateira, na zona rural do município, quando veio para a cidade em busca de tratamento e confirmou que o seu caso não havia como recuperar a visão. Diz que ficou por quatro anos sem saber o que fazer, parado, pedindo trabalho a Deus, completa.
Diante da falta de perspectiva, surgiu o inesperado por meio de um amigo veterinário conhecido na cidade, que se ofereceu para ensinar Chico a fazer redes. Animado, aceitou a oferta e aprendeu rápido.
Ele me deu só uma aula de 15 minutos e eu já aprendi. Contei com uma ajuda para comprar o primeiro material e daí não parei mais. Sempre pedi a Deus para que eu não vivesse de esmola e sim de trabalho. E assim vivo até hoje, do trabalho. Ensinei meus filhos a fazer rede e minha esposa. Todos aqui sabem do ofício igual a mim, revela.
Redes coloridas emolduram as paredes da casa do artesão. À medida que vai produzindo vai estendendo e pendurando o produto em casa, na parede da sua sala. Ali, as pessoas chegam e escolhem a rede que mais gostarem. Chico conta que este é outro momento que necessita de ajuda de alguém, na hora da venda, na indicação da cor. Diz que anda constantemente com uma bengala e um apito - invenção sua - a fim de solicitar ajuda quando é necessário.
Mais informações:
Centro de Artesanato de Tauá
BR-020, Bairro Alto do Cruzeiro
Tauá - Inhamuns
Telefone: (88) 3437.2068
SILVANIA CLAUDINO
REPÓRTER
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