Artesanato com algo mais

Tádzio França
repórter
Detalhes podem fazer a diferença quando há muita informação em volta. A Feira Internacional de Artesanato - Fiart - encerrará sua 19ª edição neste domingo, no Centro de Convenções, com um mostruário artístico espalhado por 385 estandes, entre expositores regionais, nacionais e estrangeiros. Gostos pessoais à parte, no mar de opções a escolher, destaca-se quem oferece um trabalho diferenciado, com algo a mais. Há um pouco de tudo entre esculturas de madeira ou argila, luminárias ecologicamente corretas, pinturas, entalhes ricamente elaborados, e peças banais que ganham um tratamento artístico requintado. É só prestar atenção nos detalhes.
Artistas na Feira
Os artistas potiguares tiveram sua presença fortalecida na feira ao longo dos anos, e oferecem algumas das peças mais interessantes que podem ser vistas entre os corredores do evento. Os meus falos são as peças mais fotografadas da Fiart, diverte-se o artista plástico Fábio di Ojuara, um veterano local da escultura feita a partir de metal reciclado. Desde 1987, inspirado pelo pernambucano Corbiniano Lins, ele faz arte através alumínio reciclado, panelas velhas, etc. Suas peças ganham formas de camarões, sapos, partes de anatomias masculinas e femininas. Ojuara, que já expôs fora do Brasil, acredita que eventos como a Fiart são a melhor forma de divulgar seu trabalho. Milhares de pessoas passam diariamente por aqui, diz.
Telas ingênuas de Jordão
Jordão, mais conhecido por suas esculturas e entalhes em concreto ou madeira, está mostrando na Fiart uma nova faceta: a pintura naïf. Aliás, não tão nova assim, segundo ele. Eu comecei na verdade com pintura, depois fui esculpir e entalhar, e minha carreira se firmou com isso. Mas agora pude voltar às tintas com tranquilidade, para me renovar, explica.
Jordão explora temas infantis em suas telas. Personagens negras aparecem brincando de roda, pipa, peão e amarelinha, entre cores fortes e um fundo alaranjado. O artista dá o seu toque particular a um estilo quase sempre óbvio. Jordão também tem alguns temas fracos, como São Francisco. Acho que minhas telas, mesmo no naïf, têm uma profundidade. Parece 3-D, avalia.
Altos Relevos em madeira
No terreno dos entalhes em madeira, a representação ficou para outro potiguar veterano. Mundoca atua na área desde 1969, e foi auxiliar/parceiro de Jordão durante muitos anos. Depois partiu para carreira solo, e segue apresentando peças de um detalhismo impressionante. Ele trouxe para a Fiart um quadro esculpido de forma única em mogno, sem recortes em colagens. As figuras, em alto relevo, foram inspiradas em cenários florestais que ele viu no Mato Grosso, afirma. Mas também poderia ser um cenário medieval. O outro painel, em cerejeira, representa os catadores de carnaúba. A perfeição impressiona.
Refinamento de Federico Bello
O trabalho refinado em madeira também conta com uma representação europeia na Fiart. O italiano Federico Bello, pela primeira vez no evento, trouxe pequenas esculturas em madeira, recortadas e encaixadas de forma perfeita. Elas são desmontáveis, e adquirem um movimento bonito e diferenciado. É um artesanato milenar, típico da região da Toscana, diz Federico, que há anos se divide entre Genova e Santa Catarina, apresentando seus trabalhos. As peças do artesão italiano ganham formas de paisagens, animais, e motivos religiosos.
Luzes ecológicas
O casal de Brasília Randall Félix e Vaglene chamam a atenção pela beleza de suas luminárias sustentáveis. Randall utiliza madeiras de aproveitamento (ou demolição), fibras de sisal, alumínio, etc. Para dar o tom, ou fotagem, em seus abajures, usa desde bambu e hortência e até casquinhas de cebola e bougainvilles. Para as bases de madeira, peroba rosa, aroeira e sucupira. Imperfeições ocasionais, como rachaduras e buracos na madeira, são conservados de forma harmoniosa. São todas peças exclusivas, não há duas iguais. O trabalho artístico faz a diferença, afirma.
Cristais de Sal
Outra luz que se destaca na multidão vem das luminárias de cristal de sal, feitas no Rio de Janeiro. Os cristais de sal vêm do Himalaia, que possui o sal mais pura do planeta. A cor dos cristais cobrindo a lâmpada possui um efeito diferente, resultado da presença de minerais como o ferro e o manganês. A luz suave emite relaxamento, elimina partículas de pó, fumaça e ácaros - e é realmente diferente.
A mineira Silvana Vanucci transformou descansos de travessa em peças que também decoram. Uso alumínio fundido para dar forma, e em alguns ponho decalques importados que dão um efeito ótimo na peça. O legal é que além de utilitário, o descanso também pode decorar a cozinha facilmente, explica.
Clássicos regionais
As peças em cerâmica de Edvaldo Santiago - e principalmente de seu pai o mestre Etevaldo - são ícones do artesanato potiguar. Quando meu pai faleceu em 2006, pensei em parar. Mas os amigos me fizeram continuar, diz ele, que faz esculturas com o pai desde os 10 anos de idade. Edvaldo segue basicamente o estilo paterno de esculpir: representando a cultura popular, com suas rendeiras e homens do campo. O material é uma argila mais apurada, ideal para modelar. Nossa clientela é na maioria de colecionadores, e pessoas que gostam da cultura do interior, afirma.
O escultor Santana, também de Ceará-Mirim, tem um peculiar trabalho em madeira. Suas peças são expressivas e diferenciadas. Ele usa temas como anjos, cangaceiros, entidades da umbanda, santos, Dom Quixote, entre outros. Faz também estripulias, como uma Santa Ceia em miniatura, rica em detalhes e com senso de humor.
Salão de Artes
Um espaço que funciona como uma amostra geral do artesanato da Fiart é o Salão de Artes Plásticas. Um acervo de peças variadas está exposto, como as peças em pedra sabão de César Rhasec; esculturas de madeira de Currais Novos; argilas de São José de Mipibu, entre outros. O espaço está aberto para que o público possa escolher suas peças favoritas, no 4º Prêmio Vitrine Fiart. O resultado será dado no sábado.
Palavra do Marchand
Para o experiente marchand Antônio Marques, o melhor das feiras - mesmo as internacionais - estão na arte local. Geralmente o que vem de fora para cá é o pasteurizado. Aqui, na terra, é onde está a arte autêntica, diferente, e que precisamos valorizar, afirma. Ele diz que sua referência é a Fenearte, de Recife. O foco deles é o artesanato de todo o Nordeste, uma projeção enorme pra quem produz aqui. E há oficinas e palestras com os artistas. Preparar o público pra arte é fundamental, avalia.
Serviço:
19ª Fiart. Até domingo, das 15 às 22h, Via Costeira. Entrada: R$4.
http://tribunadonorte.com.br/