Arte popular do barro ganha reconhecimento em livro

Do Litoral ao Sertão, 85 escultores representam na públicação o que há de melhor no artesanato do estado
Isabelle Barros
Braços hábeis e olhos atentos fazem com que o artesanato pernambucano consiga alcançar uma projeção internacional, tendo o Mestre Vitalino como um dos pioneiros nesse reconhecimento além das fronteiras estaduais. Da Região Metropolitana do Recife até o Sertão, milhares de artesãos trabalham com os mais variados materiais e fazem do estado um celeiro da arte popular.
Segundo a Associação de Artesãos e Moradores do Alto do Moura, só nessa localidade, em Caruaru, cerca de 2 mil pessoas vivem do barro. Na mesma cidade, está prestes a ser realizada a Bienal do Barro, evento que começa no próximo sábado (11) e traz uma reflexão feita pela arte contemporânea sobre a importância do material na construção da identidade local.
A figura do artesão também sofreu modificações. Se, antes, grupos de artistas populares mostravam seus trabalhos em feiras livres e não tinham sua arte tão valorizada, atualmente a aceitação dessas peças motivou a criação de um mercado impulsionado por grandes feiras, como a Fenearte, que trabalham especificamente com o artesanato.
De acordo com Flávia Martins, coautora do livro Nova fase da lua - escultores populares de Pernambuco, junto com Rogério Luiz e Pedro Belchior, a relação dos artistas populares com o mercado era mais desigual. Hoje, eles veem a manutenção da clientela como algo importante, mas, ao mesmo tempo, estão preocupados em não cederem a todas as pressões. Ao mesmo tempo, existem as feiras de artesanato que possibilitam um escoamento da produção. Hoje, os artesãos também estão mais bem articulados. Atualmente, quase todos têm e-mail, cartões de visita, coisa que não existia há 30 anos.
Foto: Francisco Moreira da Costa/Divulgação
Região Metropolitana do Recife
José Abias da Silva, de Igarassu
Abias, de 46 anos, começou a fazer artesanato há nove anos, a partir de um desafio de um amigo, que perguntou se ele era capaz de trabalhar com madeira. Raízes de árvores colhidas em Igarassu, onde mora, são transformadas em tatus, camaleões, beija-flores e figuras humanas, como grupos de retirantes. Aproveito tudo o que foi cortado, desperdiçado. A ideia vem de repente e, às vezes, tenho inspiração até vendo a madeira ainda na terra . A namorada dele, Celina, também passou a se aventurar no ofício. Sou apaixonado por artesanato, mas o começo não foi fácil. Você não conhece ninguém, não tem contatos e acaba desistindo se não insistir. Hoje, vendo para o Rio, para Aracaju, São Paulo, Fortaleza. É preciso ter amor e paciência.
Marcos de Nuca, de Tracunhaém
Atualmente, o artesão Marcos Borges da Silva, conhecido como Marcos de Nuca, produz 50 peças por mês, dependendo da complexidade da escultura. Sua especialidade é o barro, cuja habilidade em manipular foi herdada do pai, conhecido como Mestre Nuca, falecido em fevereiro passado. Agora, estou fazendo obras para vender na Fenearte deste ano. A dedicação ao artesanato é dividida com seu trabalho como policial militar em Nazaré da Mata. Os leões de barro criados pelo pai e aperfeiçoados pela mãe também se tornaram parte integrante de seu trabalho, com obras que, em sua maior parte, variam entre 40cm e 50cm. Animais com cabelos cacheados - marca da família no artesanato pernambucano - também estão presentes em sua obra.
Leonildo Nascimento, de Caruaru
O segundo dos dez filhos do mestre Luiz Antônio mora até hoje no Alto do Moura, em Caruaru, onde vende sua produção: são bonecas, namoradeiras, tabuleiros de xadrez, bumba-meu-boi, tudo feito com barro. O pai foi discípulo do Mestre Vitalino. Trabalho todos os dias, das 6h às 22h. Minha lembrança de infância era da Feira de Caruaru, onde eu comecei a vender meus produtos ainda criança. Com meu trabalho, consegui comprar carro, caminhão, casa. Além de moldar o barro, Leonildo também é diretor da Associação de Artesãos e Moradores do Alto do Moura, fundada em 1981 e atualmente com cerca de 300 sócios. Hoje, 90% de quem mora no Alto do Moura sobrevive do artesanato.

Marcos de Sertânia
Esculturas magras e alongadas em madeira, com grande dramaticidade, são o chamariz do ofício de Marcos de Sertânia, que trabalha com artesanato há 22 anos. Meu avô materno e quatro tios já trabalhavam com artesanato. Faço em minhas peças o que vejo no Sertão, com madeira crua e tons mais pasteis. O sertão não é muito colorido, então tento deixar isso gravado na minha obra. Marcos estima 12 horas diárias de trabalho como artesão, seja na escultura, seja na compra da madeira, que vem de fora. Comecei a ir ao Recife para mostrar meu trabalho e fui chamado para feiras. Hoje, até pessoas de fora do país compram as minhas obras. Muita gente começou a aprender artesanato comigo na minha oficina.
O livro
O livro A nova fase da lua - Escultores populares de Pernambuco traz um mapeamento dos artesãos do estado. A obra vai ser lançada no Recife na quinta-feira (10), a partir das 17h30, na galeria de arte do Centro de Artesanato de Pernambuco, localizada no Marco Zero, no Bairro do Recife. A publicação traz, em 232 páginas, depoimentos e registros em foto de 85 escultores, divididos por 13 municípios da Região Metropolitana do Recife, Zona da Mata, Agreste e Sertão. A intenção era documentar as condições nas quais os artistas populares vivem e trabalham, trazendo seus depoimentos em primeira pessoa. Essa é uma revisitação e ampliação de outro livro, chamado O reinado da lua - escultores populares, lançado em 1980 por Maria Letícia Duarte, pela própria Flávia Martins, que faz parte da equipe atual, e pela mãe dela, Silvia Rodrigues Coimbra. A última abriu, nos anos 1960, a galeria Nega Fulô, que comercializava obras de arte popular. O livro custa R$ 110.
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