Alimento como identidade

Tereza Paim | Chef de cozinha
A comida é a segunda linguagem de um povo! Depois do idioma falado, a comida típica está associada ao sentido de pertencer a uma sociedade, a uma cultura.
Comer não é apenas um ato biológico, é antes de tudo um ato tradutor de sinais, de reconhecimentos formais, de cores, de texturas, de temperaturas e de estética. Cada vez mais a comida é percebida e valorizada como uma manifestação cultural que identifica os grupos.
O Brasil, em alta exposição mundial pelos eventos esportivos que se avizinham, como Copa do Mundo e Olimpíadas, precisa se posicionar do ponto de vista gastronômico exibindo sua faceta de país multicultural.
O turista cada vez mais busca mais que fotografar paisagens, sol e praia, ele quer viver uma experiência. Ao recebê-los, temos que oferecer o que temos de melhor e mais singular: nossa cozinha típica.
Aqui na Bahia, temos a responsabilidade de mostrar que o Brasil nasceu aqui e nossa comida é miscigenada, composta de saberes e sabores do índio, do negro e do português.
Mas nossa comida também é litúrgica, nos comunicamos com os Orixás e com os Santos do catolicismo, seja pra agradecer ou pra pedir, oferecendo comidas típicas, nos seus dias festivos. Assim é o caruru de Cosme e Damião, a feijoada de Santo Antônio etc.
A comida típica também se apresenta como uma grande aliada da sustentabilidade, uma vez que os ingredientes que a compõe estão ligados à região próxima. Isso faz com que se preserve o meio ambiente por menos emissão de carbono com mínimo deslocamento do ponto de origem até as cozinhas de preparo. Além disto, as cadeias produtivas são fatores geradores de emprego e renda para a população local.
Aproveito pra registrar que a comida baiana, principalmente as moquecas são o retrato da Bahia, são coloridas, chegam à mesa dançando, cheirosas, quentes, fumegantes, gerando suspiros de admiração nos turistas e trazem aconchego ao coração dos locais.
Mas nossa identidade gastronômica está fortemente ameaçada pelos órgãos regulamentadores sanitários do País. Nossa legislação pune o que é típico em vez de estimular e treinar nossos pequenos produtores em boas práticas de fabricação e manipulação, assegurando assim a continuidade de nossas tradições e firmando nossa identidade cultural. A exemplo disso temos o queijinho no espeto, o churrasquinho de gato etc.
Nossas autoridade governamentais precisam valorizar nossa cultura no prato de comida, reconhecer nossa identidade como povo brasileiro e se posicionar a favor do que é típico, como forma de continuarmos atraindo visitantes do mundo inteiro.
E cabe a todos nós profissionais do setor de alimentos e bebidas do Brasil, com responsabilidade e boas práticas de segurança alimentar, alimentarmos corpos e almas, mostrando nossas iguarias, encantar nossos visitantes e deixar a marca da nossa cultura cravada na memória deles.
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