Agricultura familiar: jovens assumem frente de negócios

Agricultura familiar: jovens assumem frente de negócios
Marina Schmidt
MARCOS NAGELSTEIN/JC
Produção mensal é de 3 mil quilos de queijo, diz Bruna
Um dos espaços mais visitados da Expointer é também um retrato das pequenas agroindustriais gaúchas. Quem frequenta o tradicional pavilhão da Agricultura Familiar há alguns anos percebe que a imagem do produtor rural vem se renovando no decorrer da última década, contradizendo a visão mais tradicional que se tem dos agricultores. Hoje, os responsáveis pelos negócios do campo estão cada vez mais jovens e a presença feminina não é apenas um mero detalhe nos estandes: demonstra o crescente espaço delas no controle na gestão dos agronegócios.
O assessor de Política Agrícola e Agroindústrias da Fetag, Jocimar Rabaioli, afirma que o cenário é fruto de mudanças comportamentais e da expansão do agronegócio, somado a melhorias de infraestrutura nas áreas rurais, que permitem às pessoas do campo terem confortos iguais aos habitantes das cidades. Para o secretário de Desenvolvimento Rural, Elton Scapini, a sucessão familiar no campo é uma prioridade, já que um terço das propriedades rurais gaúchas não deve ter sucessores. Nosso desafio é reverter esse quadro, com estímulos sociais, digitais e culturais. Entre os setores mais promissores, a agroindústria é a que mais atrai o interesse dos jovens.
De olho em novos mercados
A primeira agroindústria de Erechim, a Queijos Dariva, inscrita municipalmente em 1990 sob o número 001, estava prestes a ser descontinuada quando a sucessão familiar mudou completamente os rumos do negócio iniciado por Celestino Dariva e Neli Dariva. A filha do casal, Bruna Dariva, 26 anos, decidiu, há quatro anos, retornar para o campo e levar adiante o projeto da família.
Morava e trabalhava em Balneário Camboriú, mas decidi voltar quando vi que a agroindústria estava abandonada, conta. Como sou filha única, se eu não fizesse nada a empresa iria fechar. Bruna dimensiona que desde que assumiu os negócios, a produção mensal saltou de 300 quilos para 3 mil quilos de queijos.
Atualmente vendendo apenas para consumidores finais em Erechim, o faturamento mensal bruto da agroindústria é de R$ 50 mil, mas esse valor deve crescer. Investindo tudo o que recebe no negócio, a empresária se prepara para conseguir a inscrição estadual e posteriormente federal para atingir novos mercados.
Para quem não pensava em permanecer no campo, Bruna exemplifica bem a mudança recente na condução das propriedades rurais. Sempre houve preconceito com relação ao trabalho dos agricultores. Mas agora, eu acho que as coisas estão bem melhores, comenta. Hoje, ela é uma das defensoras das pequenas agroindústrias, atuando como presidente da Feira do Agricultor de Erechim. Temos 30 agroindústrias em Erechim e uma das nossas lutas é elevar a autoestima dos agricultores.
Do tacho à agroindústria
Quando Valmor Luchese, de Nova Araçá, procurou a consultoria da Emater para dar início à criação de vacas leiteiras, em 2010, saiu de lá com uma proposta totalmente diferente da inicial. Os doces caseiros da esposa, Lorena Luchese, eram tão famosos na cidade que o próprio agrônomo da entidade sugeriu que o melhor negócio seria apostar em uma agroindústria para produção de doces.
Há 25 anos, Lorena começou a prepará-los. Acondicionados em grandes baldes, a doceira saía pela cidade vendendo colheradas do produto caseiro. Com a instalação da agroindústria, o processo se sofisticou. A família investiu em maquinário e, em 2012, começou a produção que não para de crescer. No primeiro ano foram 2 mil quilos de doces passando para 20 mil em 2013. Agora, neste ano, pretendemos chegar a 40 mil quilos, contabiliza Maquielem Luchese, 22 anos, filha do casal, que administra o negócio da família com apoio dos irmãos, Maxiel, 26 anos, e Marcus Vinicius, 16 anos.
Maquielem conta que, se não fosse a agroindústria, tentaria a carreira de médica. Como os negócios da família deslancharam, ela voltou-se completamente para a gestão e vendas dos produtos da Casa Luchese, que comercializa chimias e doces de frutas para mais de 200 estabelecimentos comerciais em 40 cidades gaúchas.
Maquielem não vê dificuldades no campo, a não ser uma: mão de obra para expandir os negócios. Até agora, a família dá conta da produção e das vendas, mas sinto que não vai ser tão fácil quando precisarmos de mais gente para crescer, projeta a empreendedora.
Vocação para a vida rural
Para Adriana Polese, 30 anos, a vida na cidade nunca foi uma opção, embora ela não cogitasse assumir o trabalho da família no cultivo de grãos. Os pais, Jenir Polese e Marilena Polese, plantavam milho, soja e parreira, enquanto a filha sonhava em ser médica veterinária. Isso até os 20 anos, quando os Polese decidiram investir na produção de suco de uva. Instalada em Putinga, na região do Vale do Taquari, a família arrendou as terras de cultivo de grãos e deu início à empresa Sucos Polezi, contando com crédito para os investimentos iniciais.
Na última década, a produção de sucos se expandiu e ganhou novos mercados. As caixas de garrafas de 2 litros são entregues a compradores do Rio Grande do Sul, de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. Quem comanda a empresa é Adriana com o apoio do irmão, Norberto Polese, 36 anos. Adriana conta que as vendas na Expointer estão superando as expectativas, ultrapassando mais de 840 litros de suco de uva.
A plantação de uvas bordô ocupa 6 hectares da propriedade da família, que pretende obter em três anos o selo de produto orgânico. Atualmente, as parreiras não recebem qualquer tipo de agrotóxico, bastando apenas aguardar o período de renovação do solo para que a empresa ganhe a certificação. Isso vai agregar ainda mais valor ao nosso produto, projeta.
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