Brinquedo de miriti: arte e tradição que movimenta a economia paraense

Brinquedo de miriti: arte e tradição que movimenta a economia paraense
A Feira do Miriti será aberta nesta quinta-feira, 9, com uma variedade de brinquedos expostos ao público
Da Redação
Agência Pará de Notícias
Há mais de 200 anos eles são a expressão artística da sensibilidade do caboclo paraense. Os brinquedos de miriti são um reflexo da criatividade de artesãos, especialmente do município de Abaetetuba, e suas influências afetivas do simples cotidiano de sua região. Entre as temáticas, barcos, cobras, tatus, peixes e muitas outras coloridas peças do chamado isopor natural da Amazônia enfeitam o Círio de Nazaré e são a base de sustento financeiro de centenas de famílias.
Ivan Leal é um dos artesãos que dedicam toda a vida à confecção de artesanato de miriti. Desde criança, ele descobriu o processo de confecção de brinquedos, se encantou e transformou a habilidade em profissão. Quando criança, fazíamos vários brinquedos. Éramos 15 filhos e tínhamos que ser criativos, então comecei a fazer os brinquedos de miriti. Depois que cresci, tive a necessidade de ganhar dinheiro e hoje é uma verdadeira paixão. É o ar que eu respiro e o sustento da minha família. Trabalho hoje com peças decorativas e utilitárias. Durante o período do Círio trabalho mesmo com as peças tradicionais, mas, ao longo do ano diversifico a produção e faço muitas peças diferentes, como arandelas, abajures. É um grande privilégio trabalhar com esse material, fala.
O trabalho de Ivan e de outros 70 artesãos poderá ser conferido de perto na Feira do Miriti, promovida pela Associação dos Artesãos de Miriti da Abaetetuba (Asamab) com apoio do Governo do Pará, por meio da Secretaria de Estado de Trabalho, Emprego e Renda (Seter). A exposição está em sua décima terceira edição e será realizada de 9 a 13 deste mês, na Praça Dom Pedro II, das 7h da manhã à meia noite.
Na abertura do evento será realizada uma missa, às 16h, na Igreja da Sé. A partir das 18h ocorrerá a abertura oficial da venda de objetos na praça. O evento é um reflexo do poder da tradição e das potencialidades econômicas de um dos mais tradicionais símbolos da festividade nazarena. Nós estamos com uma grande expectativa de não voltar com nenhuma peça para Abaetetuba. Estamos produzindo muito material e tentando controlar a venda para ter muito material para a feira, porque antes mesmo do evento estamos recebendo encomendas. Ontem mesmo fiz uma venda de 3 mil peças, mas, agora tudo o que foi produzido tem como destino a Feira do Miriti, explica Rivaildo Peixoto, artesão e presidente da Asamab.
A Feira deste ano vai ofertar um volume de 42,5 mil peças de brinquedos de miriti, um crescimento significativo, já que no primeiro ano os artesãos trouxeram 17 mil brinquedos. Este ano, os artesãos de Abaetetuba vão ocupar 52 estandes, junto a outros 10 expositores da capital, que mostrarão outras formas de artesanato. A importância maior desse evento é ver a divulgação do nosso artesanato, do nosso estado e do nosso município, Abaetetuba. É muito gratificante levar nossa arte e ter a valorização dela, principalmente no últimos anos, fala o presidente da Asamab.
Qualificação
Só em 2014 a Seter já capacitou mais de 1.600 artesãos em cursos profissionalizantes, como o encontrado na Fundação Curro Velho, no bairro do Telégrafo. O instrutor da oficina de confecção de brinquedos de miriti, ocorrida este mês, Arthur Sousa, é mais um exemplo de quem viu a vida transformada pelo artesanato. Quando eu era criança, em Cametá, a gente brincava com o que tinha em mãos e a fazia nossos carros, nossos barquinhos de miriti nos rios e igarapés de lá. Tinha até um campeonato de quem fazia o melhor barco. Quando eu cresci, vim para Belém estudar e conheci a Fundação Curro Velho, em 2003, e comecei a ter contato com vários artistas, participar de vários trabalhos e o miriti novamente apareceu para construir bonecos, maquetes, confecção de alegorias e adereços para o carnaval. Desde 2005 comecei a assumir as turmas para fazer oficinas e o miriti encanta várias pessoas, que vêm procurar aprender a manipular o miriti e suas técnicas. Agora percebo que o miriti não está sendo só utilizado no Círio e fico satisfeito com isso, diz.
O estudante Eduardo Luiz Zarpelon, de 13 anos, se interessou em fazer a oficina depois de ver a beleza dos brinquedos no Museu Emílio Goeldi. Sabia mais ou menos o que era miriti e vim fazer esse curso de 15 dias. Este ano, no Círio, depois de aprender, vou fazer uns brinquedos de miriti para a minha casa, diz.
Aos 63 anos, Evaldo Moraes do Santos, mecânico de automóveis, se dedicou ao curso para aprender a fazer os tradicionais brinquedos e terminou a oficina satisfeito. Se todo ser humano soubesse o que significa o miriti,.se todo marajoara soubesse a importância, ele não desperdiçava esta riqueza. Eu sei e por isso que vim aqui pegar essas aulas, para aprender, me especializar e algum dia eu vou dar aula aqui, conta.
Maria das Dores Godinho, de 70 anos, já é artesã e resolveu aprimorar seus conhecimentos. Há 3 anos fui fazer um trabalho e precisei de bichinhos e não consegui porque era mês de agosto e não tinha nada em Belém. Andei Belém toda e não achei. Tive que ir a Abaetetuba três vezes para fazer a encomenda. Aí decidi me aprimorar. É ótimo. Já aprendi e fiz peixinhos, bailarinos, vários brinquedinhos e estou adorando. Eu gosto muito de artesanato e de aprender essas coisas, principalmente da nossa região, explica.
Só para se ter uma ideia da importância do artesanato e da oportunidade de geração de renda para a região, na terceira edição da Feira do Artesanato Paraense (Fesart Pará), realizada junto com a IV Feira do Artesanato Mundial (FAM), o volume de vendas diretas ultrapassou R$ 2,2 milhões. Mais de 90 mil pessoas visitaram os 10 dias de evento, realizado no Hangar Convenções e Feiras da Amazônia.
Foram comercializadas 44.100 peças, de 63 municípios, 17 estados e 23 países. A Fesarte ainda gerou cerca de 2.200 empregos diretos e indiretos. Em comparação à primeira feira, na qual o lucro foi de quase R$ 265 mil, e a segunda edição, de 550 mil, a terceira edição foi um sucesso nas vendas diretas. E os artesãos vão continuar lucrando até o fim do ano com as encomendas da Rodada de Negócios, fala Glória Pareira, uma das coordenadoras do Programa Estadual de Artesanato, da Secretaria de Estado de Trabalho, Emprego e Renda (Seter).
Serviço:
A Feira do Miriti será realizada de 9 a 13 de outubro, de 7h à meia noite, na Praça Dom Pedro II. No dia 9, a abertura será com uma missa, às 16h, na Igreja da Sé. Neste dia, somente a partir 18h, a feira será aberta.
Ana Paula Bezerra
Secretaria de Estado de Comunicação
http://www.agenciapara.com.br

Alimentos & Bebidas
Artesanato
Turismo